Experimentar a Arquitectura em Londres

Fonte: Sol

Siza Vieira e Souto de Moura foram convidados para uma exposição na Royal Academy of Arts, em Londres, onde são exploradas as dimensões sensoriais da arquitectura. Kate Goodwin, a curadora de Arquitectura desta instituição privada com 244 anos, diz que os portugueses acrescentam a dimensão da memória. Sensing Spaces foi aclamada pela imprensa londrina e pode ser sentida até 6 de Abril

O pátio da Royal Academy of Arts, em Londres, ostenta umas colunas amarelas que, embora no exterior do edifício, fazem já parte da exposição anunciada ‘Sensing Spaces:Architecture Reimagined’, algo como Espaços Sensorias: Arquitectura Reinventada. A composição é a proposta de Álvaro Siza Vieira para a maior exposição de arquitectura desta instituição em décadas e é uma espécie de cartão de visita para o que, mais do que ver, se vai experimentar. Todos os sentidos, incluindo o olfacto, serão convocados neste percurso pelos grandes salões da Royal Academy, com projectos de sete arquitectos que, como diz a curadora de Arquitectura da instituição e que liderou este projecto, Kate Goodwin, foram escolhidos tendo em conta “permitir uma perspectiva abrangente”.

Por isso, os arquitectos convidados são oriundos de diversas partes do mundo, do Japão ao Burkina Faso, e correspondem a diversas filosofias e escolas.

O que torna a exposição relevante para nós é que Portugal é o único país a ter dois representantes, que são também os únicos arquitectos presentes vencedores de prémios Pritzker: Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura.

Não foram escolhidos por causa do peso do chamado Nobel da Arquitectura, mas porque, como diz a curadora inglesa numa conversa telefónica com o SOL, “os dois são incrivelmente importantes para muitas gerações de arquitectos. Eles ganharam o Pritzker por serem magníficos, mas não foi por causa do prémio que foram escolhidos para estarem aqui”.

Conhecedora in loco de parte da obra edificada dos dois portugueses, Kate refere que “Siza Vieira faz edifícios muito poderosos. Ele é um arquitecto muito físico e a maneira como interliga o espaço é muito bonita. Tem uma grande noção de escala e o seu trabalho resulta numa arquitectura muito serena”. Em Portugal, Kate recorda ter estado na Casa de Chá de Leça da Palmeira, ou no museu de Serralves, onde sentiu “o refinamento dos edifícios de Siza Vieira: sem excessos, eles têm o que devem ter. Ele consegue forjar uma relação entre o homem e a natureza de uma forma muito delicada, interrogando onde está a Natureza e onde está o Homem. Sempre fiquei fascinada com a maneira como Siza consegue criar sítios muito bonitos”.

Perspectiva partilhada

Logo à partida, a curadora da Royal Academy perguntou aos dois arquitectos da Escola do Porto se preferiam fazer um projecto juntos, mas embora tenham decidido cada um apresentar uma intervenção própria, “os dois estão num diálogo muito interessante”. Siza colocou colunas no pátio de acesso às galerias “que têm um ritmo ao longo da fachada”. O que mudou a percepção do espaço: “Antes, nunca tinha sentido as colunas do edifício, para mim eram uma necessidade. Sendo um elemento da arquitectura clássica, Siza olha para elas de maneira diferente e dá-lhes um novo sentido”.

No interior das grandes galerias da Burlington House, no West End londrino, Souto de Moura replicou um arco de uma porta, uma outra estrutura de referência da arquitectura clássica e uma constante no traçado do edifício onde em 1867 se instalou a Royal Academy, uma instituição privada de defesa das artes. “Há um diálogo muito interessante entre os dois. Eles entenderam o projecto um do outro. Tiveram uma perspectiva partilhada”, refere Kate Goodwin.

Quanto à obra de Souto de Moura, Kate Goodwin sustenta que se trata de construções com uma “energia diferente, muito expressivas, como é o caso do Estádio do Braga, ou que se integram perfeitamente na vida da cidade, como é o caso das estações do metro do Porto”.

Quanto à especificidade dos portugueses, Kate Goodwin salienta que os dois “entendem o significado da arquitectura como algo historicamente importante. Incorporam o valor da arquitectura através dos tempos, no seu desenho, na sua experiência”. E é o ‘sentido’ da memória que os dois convocam.

Aclamada por jornais ingleses como “fora de série” ou “uma das melhores exposições de 2014”, segundo a Time Out de Londres, ‘Sensing Spaces’ convida o visitante a experimentar os efeitos sensoriais da arquitectura, muito para além das considerações estéticas que vão do belo ao horrível, e segue uma tendência dos nossos dias em que o cidadão comum é o centro das preocupações de um arquitecto e não o objectivo do traço grandioso para a posteridade ou para imprimir marca na cidade. Como se define no catálogo, a exposição “concebe a arquitectura sob o ângulo do encontro humano: como a visão, o tacto, o som e a memória desempenham um papel na nossa percepção do espaço, proporção, materiais e luz”.

Cheirar o espaço

E há um sentido que também é convocado: o olfacto. Inspirado por uma cerimónia japonesa, Kengo Kuma introduz o aroma na experiência sensorial do espaço; Diébédo Francis Kéré, o arquitecto oriundo do Burkina Faso que recebeu o prestigiado prémio Aga Khan de Arquitectura, em 2004, com uma escola feita em barro numa aldeia do seu país natal, criou um túnel onde o visitante interage com o material inserindo-lhe elementos coloridos; o chinês Li Xiaodong integrou um sentido de aprisionamento através de paredes construídas em toros de madeira; o ateliê irlandês Grafton Architects, de Shelley McNamara e Yvonne Farrell, desenhou uma estrutura imponente que pende da abóbada permitindo experiências diversas de luz e sombra e a dupla Pezo von Ellrichshausen, do Chile, criou uma estrutura monumental na maior das galerias, que desafia a noção clássica de perspectiva.

Segundo a sua curadora, Sensing Spaces é a maior e mais complexa exposição dedicada pela Royal Academy à Arquitectura desde 1986, ano em que New Architecture: Foster, Rogers, Stirling, Sensing juntou os três eminentes arquitectos britânicos. Sensing Spaces estará aberta ao público até 6 de Abril na vetusta instituição criada em 1768 pelo Rei Jorge III e que teve entre os seus académicos, obrigatoriamente artistas ou arquitectos, os grandes pintores britânicos JMW Turner e John Constable, e que estatutariamente ambiciona liderar o debate nas artes. Actualmente, os seus membros incluem nomes como o arquitecto Norman Foster, o pintor David Hockney e o artista plástico Anish Kapoor.

telma.miguel@sol.pt

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