Os arquitectos (já) não desenham só edifícios

Fonte: p3.publico.pt

Os jovens arquitectos estão a reinventar as saídas da profissão, procurando nichos e novos clientes. Algo que sempre aconteceu, embora em menos quantidade, referem especialistas

A forma como os arquitectos exploram o mercado de trabalho está a mudar. Se antes, a maioria dos novos profissionais era absorvida pelos gabinetes, hoje em dia o cenário é outro. Há cada vez mais arquitectos que traçam novas linhas e projectam outros caminhos, das artes ao design, passando pela edição ou curadoria. Mas conseguem marcar a diferença por continuarem a ser arquitectos. 

A capacidade de “desenhar desde a chave até à cidade” e o “desejo de projectar” fazem com que o arquitecto tenha uma “natureza híbrida”. A crise e o avanço tecnológico estão a ser motores de mudança na profissão, defendem Jorge Figueira, crítico de arquitectura, e Hélder Casal Ribeiro, professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). 

Tudo começa com uma visão do mundo diferente. Os arquitectos têm a capacidade de desenhar e de projectar não só edifícios, mas tudo o que seja possível imaginar: uma cadeira, uma escultura, um filme, uma exposição ou uma instalação. Esta característica sempre esteve presente nestes profissionais, mas, de uns anos para cá, está a saltar à vista da sociedade através de projectos individuais e colectivos, que dão uma nova cara à arquitectura em Portugal. 

“Sempre transportamos este sentido artístico, mas projectar edifícios sobrepunha-se ao resto. Hoje, a crise e as dificuldades de colocação dos jovens arquitectos em gabinetes fazem com que se comece a explorar outras áreas”, defende Hélder Casal Ribeiro. 

O professor da FAUP acredita que “há uma mudança de paradigma” na profissão. Os novos projectos começam a dar “respostas mais ligadas às artes”. “Há meia dúzia de anos atrás poucas pessoas exploravam estas áreas. Mas, os jovens arquitectos sentem que é uma continuação da formação. Se podemos construir um edifício, podemos construir um cenário ou uma escultura”, considera Hélder Casal Ribeiro. 

Na mesma linha, o crítico de arquitectura Jorge Figueira considera que “nos últimos cinco anos, a crise está a fazer com que os recém-formados atravessem o campo disciplinar e façam experiências noutras áreas”. O que resulta numa inversão de papéis: “já não são os clientes a procurarem os arquitectos, são os arquitectos que fazem novas propostas aos clientes”. “O que faz com que o grau de sedução seja maior, já que as artes plásticas e o design têm um grau de atrevimento maior”, realça Jorge Figueira. 

Mudam de profissão, mas continuam arquitectos

São mais “comunicativos”, “interventivos” e têm de encontrar “formas mais apelativas de divulgarem as suas propostas”. É assim que Jorge Figueira descreve estes profissionais, mas sublinha: “embora possa haver esta migração, os arquitectos só são úteis se fizerem este percurso e se mantiverem como arquitectos”. 

Não são “artistas de segunda” ou “designers de segunda”, diz Jorge Figueira. São arquitectos e devem manter-se fiéis aos princípios da profissão, até porque estas são “extensões da formação em arquitetura”, afirma Hélder Casal Ribeiro, dando como exemplo Siza Vieira, “que sempre fez de tudo, do design de objecto ao edifício”. Aliás, a “história da arquitectura está cheia de exemplos”, em diferentes períodos, aponta Jorge Figueira. A “crise e a facilidade de criar imagens através das novas ferramentas multimédia” estão a contribuir para esta alteração da profissão nos dias de hoje, acredita. 

Deixando de lado o cliché da crise como uma oportunidade, Hélder Casal Ribeiro também concorda que “a crise acabou por ser um factor de mudança”. “Olhando para a história, é nos momentos de crise que damos o salto”, refere. Não fosse também a arquitectura uma profissão em constante diálogo com a sociedade. 

“Actuar em outras áreas sempre aconteceu, mas em menos quantidade. A arquitectura é também uma arte social que deve intervir nos vários níveis da sociedade”, defende o professor da FAUP. Enquanto o artista “tem uma visão pessoal e egocêntrica do mundo”, o arquitecto “tem uma visão mais social, onde entra a relação com as pessoas, com os edifícios e com a sociedade”, descreve Jorge Figueira. 

Para o crítico de arquitectura, esta “missão social”, esta “capacidade de pensar em termos globais”, de “não esquecer como as pessoas vivem” e de “estar em permanente discurso com a sociedade” fazem com que os arquitectos consigam marcar a diferença no mercado de trabalho, mesmo que decidam actuar noutras áreas.

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